sábado, 19 de maio de 2018

Mario Vargas Llosa - "A Tia Júlia e o Escrevedor” / "La tia Julia e el escribidor"


Mario Vargas LLosa 
"A Tia Júlia e o Escrevedor" 
Dom Quixote, Pag. 340 

O nome de Mario Vargas Llosa, nascido no Perú em 1936, é por demais conhecido em todo o mundo e a sua escrita, uma das mais geniais oriundas da América Latina, irá receber muitos anos depois o Prémio Nobel da Literatura, essa distinção máxima a que um escritor pode aspirar. 

No interior da sua obra literária há um romance que deu brado e se tornou um verdadeiro livro de culto, por ser autobiográfico, já que o herói masculino de “A Tia Júlia e o Escrevedor” é o próprio Vargas Llosa, que a sua tia Julia Urquidi Illanes trata por Vargitas, dada não só a diferença de idades, mas também por esses laços familiares que os ligam. 

Na época retratada no romance, Mario Vargas Llosa andava a terminar Direito e era também responsável pelos serviços noticiosos de uma rádio, já a sua querida tia Júlia, recém-divorciada tinha regressado da Bolívia, respirando sensualidade e desgosto. 

Será precisamente na Radio Central de Lima que Mario Vargas Llosa irá conhecer um colega jornalista chamado Pedro Camacho, que nutre uma profunda antipatia pelos argentinos, criando histórias para a rádio, os famosos folhetins radiofónicos, em que estes são os célebre protagonistas sempre crivados pelas balas satíricas de Pedro Camacho, que os ridiculariza de fio a pavio. 

O leitor de “A Tia Júlia e o Escrevedor”, ao ler os capítulos em que possuem os relatos de Pedro Camacho, não consegue conter o sorriso para não dizer a gargalhada, tal é a verve humorística do escritor peruano. Por outro lado irá acompanhar o romance clandestino entre Vargas e a sua Tia Julia, que traz a família em sobressalto, porque qualquer um percebia o que se estava a passar e como não podia deixar de ser o escândalo surge quando Vargitas e a Tia Julia, consumidos pela paixão, decidem fugir e casar, mas o melhor é dar voz ao próprio escritor: 

“Saímos de Lima às nove da manhã, numa camioneta que apanhámos no Parque Universitário. A tia Júlia tinha saído de casa dos meus tios com o pretexto de fazer as últimas compras antes da viagem, e eu, da dos meus avós, como se fosse trabalhar para a rádio. Ela metera num saco uma camisa de dormir e uma muda de roupa interior; eu levava, nos bolsos, a minha escova de dentes e uma máquina de barbear (que na verdade, ainda não me servia de grande coisa).” 

“A Tia Julia e o Escrevedor” revela-se um fabuloso romance autobiográfico que nos proporciona um maravilhoso encontro com o sorriso literário desse fabuloso escritor peruano chamado Mario Vargas Llosa. 

Rui Luís Lima

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Rui Diniz - "Ossuário (ou: a vida de James Whistler)



Rui Diniz 
"Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)" 
& Etc, Pag. 69 

Rui Diniz pertence a essa conhecida Geração de 60, que nos ofereceu poetas como Nuno Júdice, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, entre outros e em 1977, a editora & Etc de Vitor Silva Tavares, publicou o seu livro de poemas intitulado “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”, que se revelou ser um dos mais belos livros de poesia publicados no século xx, que se encontra mais que esgotado, embora seja possível encontrá-lo para leitura tanto na Casa Fernando Pessoa como na Biblioteca Nacional, ambas em Lisboa. Na época da sua publicação o livro de Rui Diniz foi objecto de uma Sessão de Leitura no Teatro da Cornucópia, na Sala Manuela Porto, recorde-se que na introdução de “Ossuário (“ou: A Vida de James Whistler)”, o poeta Nuno Júdice refere que “escritos na sua maior parte, senão todos, em Portugal, estes poemas falam do exílio simultaneamente como prova e exorcismo”. Convém referir que Rui Diniz, desde a publicação deste seu livro, reside nos Estados Unidos da América, na pequena cidade de Eaton, Ohio e só regressou a Portugal a convite da Casa Fernando Pessoa para um encontro de poetas portugueses a viverem fora do país, realizado em 1999, sobre o título “Encontro de Poetas da Diáspora Portuguesa”. 

Recorde-se que Rui Diniz e Nuno Júdice são amigos de longa data, tendo até Rui Diniz assinado a introdução do primeiro livro de poemas de Nuno Júdice, intitulado “Noção de Poema” (1972). Embora nunca mais tenha surgido no nosso país outro livro de Rui Diniz, ele continua a escrever, como refere um artigo publicado na revista da Casa Fernando Pessoa, enviando a sua obra para o amigo Nuno Júdice. Aqui vos deixo um dos poemas incluídos em “Ossuário (ou: A Vida de James Whistley)”, uma das mais belas obras poéticas da segunda metade século xx. 

Rui Luís Lima 

.../... 


Os Anos de Transição – Uma Canção de Exílio

Em Paris vi as raparigas escuras, por entre
a neve, respirando a solidão,
nas esquinas ásperas das tardes, descendo
nos passeios, procurando talvez os amigos
desaparecidos. Estava sentado nos cafés, a
escrever um romance sobre um grupo de pessoas,
muito jovens, que só se reunia nos cafés para
estudar e vadiava e bebia, a maior parte do tempo,
e também às vezes alguém se apaixonava
por alguém de uma maneira terrível e se
preocupava durante dias e às vezes meses seguidos
com isso. Eu próprio, de vez em quando,
parava de escrever e bebia um bocado
de pernod que encomendara.
De certo modo, as minhas recordações eram assim,
com pessoas a amarem-se secretamente, nos cafés,
enquanto conversavam sobre a opressão e os meios
de revolucionar os dias e as tardes, rindo nervosa-
mente, bebendo bagaços ou mesmo «moscas».
E as raparigas que entravam nos cafés e se sentavam
para tomar cafés e começavam a ler um livro
tirando os óculos escuros, eram as mesmas que
eu conhecera e talvez amara em Lisboa, os mesmos
rostos tristes, quase sem palavras, onde uma
alucinação milenária brilhava, em certos instantes, tão
terrivelmente.
Em Paris vi o inverno dilatar-me roxas olheiras
e aumentar-me a fome e não fui capaz de
escrever o romance porque o meu vocabulário
tinha sido muito restrito e afinal eu
nunca soubera escrever na minha vida.
Uma tarde de Dezembro, no café de Versailles,
tomei um whisky com soda e conversei com
o criado sobre o vício em que todos os exilados
como eu ali se afundavam, e vi-o concordar
e várias vezes sorrir-me com uma quase piedade,
e nessa altura paguei, levantei-me, e pensei pelo
caminho muito seriamente se voltaria a
frequentar aquele café.

Rui Diniz
In “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”
Edições & Etc, 1977.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Yukio Mishima - "O Tumúlto das Ondas"


Yukio Mishima 
“O Tumulto das Ondas” 
Relógio D’Água, Pag.174 

Foi através de um texto de António Mega Ferreira (*) publicado no JL – Jornal de Letras, na época em que ele era chefe de redacção, que descobri o escritor Yukio Mishima, o alvo era a publicação em Portugal de “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” e desde então tenho lido tudo o que encontro do autor japonês, depois temos o celebre filme que Paul Schrader realizou, sobre o qual já aqui escrevemos, e essa obra incontornável que Margueritte Yourcenar escreveu sobre o escritor e disponível no nosso país graças à editora Relógio D’Água que também é responsável pela edição deste belo e singular romance intitulado “O Tumulto das Ondas” com ilustrações de Catarina Baleiras. Estamos perante um belo romance que nos narra a história de amor entre Shinji, um jovem pescador pobre e a bela Hatsue de outra condição social, mas que não será impedimento para que a chama do amor surja de mansinho e os leve a unir esforços para ultrapassar as barreiras que os separam do Paraíso. Como já é habitual nestas pequenas crónicas aqui fica um pequeno trecho deste belíssimo livro de Yukio Mishima. 

Rui Luís Lima 

.../... 

“O Tumulto das Ondas” 

(...) "Agora, já Shinji podia entrar livremente em casa de Miyata Terukichi. Um dia que voltava, apresentou-se à porta da casa com uma camisa de colarinho aberto, de brancura impecável, e com as calças acabadas de passar a ferro; em cada mão trazia uma dourada... 
Hatsue esperava-o, já pronta. Os dois jovens haviam prometido ir ao templo de Yashiro e ao farol para anunciar o noivado e transmitir os agradecimentos. 
Iluminou-se a entrada de terra batida mergulhada na meia escuridão do crepúsculo. Hatsue surgiu, vestida com aquele quimono de Verão, branco, com grandes campainhas, que comprara ao vendedor ambulante. A brancura do vestido brilhante, mesmo em plena noite. 
Shinji ficara à espera, apoiando-se com uma mão à porta da entrada; baixou o olhar para Hatsue quando esta apareceu e, sacudindo uma das pernas calçadas com socos de madeira, como quem espanta os insectos, murmurou: 
- Os mosquitos são terrívéis! 
- São, não são? 
Os dois jovens subiram a escadaria de pedra que levava ao templo de Yashiro. Em vez de correrem por ali acima como poderiam ter feito, preferiram subir lentamente os degraus, com os corações banhados de alegria, como para saborearem o prazer de cada degrau."(...) 

Yukio Mishima 
in "O Tumulto das Ondas" 

(*) - O Texto de António Mega Ferreira sobre Yukio Mishima que refiro, poderá ser encontrado no livro "A Borboleta de Nabokov". (Ed.Noticias)

domingo, 13 de maio de 2018

Julia Kristeva e Philippe Sollers – “Du mariage considéré comme un des beaux-arts”


Julia Kristeva e Philippe Sollers 
"Du mariage considéré comme un des beaux-arts" 
Fayard, Pag. 160 

Philippe Sollers e Julia Kristeva são um dos casais mais fascinantes da Literatura, ele francês, ela búlgara (que veio estudar muito nova para Patis) e, muitos anos depois, decidiram lançar o livro “Du mariage considéré comme un des beaux-arts” (edição da Fayard), no qual nos é dado a conhecer quatro conversas entre eles ao longo de um período temporal que vai de 1990 a 2014, onde descobrimos a sua experiência intelectual, tanto como escritores quer como pessoas intervenientes no mundo contemporâneo. Recorde-se que Philippe Sollers foi o fundador da célebre revista “Tel Quel” (1960 – 1082), onde colaboraram as mais importantes figuras do mundo intelectual francês, à qual um ano depois (1983) lhe irá suceder a revista “L’infini”, onde mais uma vez Philippe Sollers surge como o motor desta magnifica revista trimestral.



No prefácio deste maravilhoso livro, Philippe Sollers conta-nos que só se pensou em casar uma vez e essa vez chegou por todas e assim este fascinante conversador, grande fumador, que até um dia pegou fogo ao seu local de trabalho, a editora Gallimard, ao deitar um cigarro mal apagado para o caixote, conduz-nos na companhia de Julia Kristeva a conhecer o seu pequeno universo, ao mesmo tempo que a psicanalista e escritora, na sua introdução, nos conta que o simples facto de serem dois seres um pouco diferentes, já que nasceram em territórios bem distintos, ela na Bulgária e ele em França, terminou por conduzi-los a esse território da harmonia, fugindo a esse campo de batalha em que muitas vezes os casais se vêm envolvidos.


Durante a promoção de “Du mariage considéré comme un des beaux-arts”, Philippe Sollers e Julia Kristeva deram diversas entrevistas a jornais, revistas e canais de televisão, e de todas as entrevistas ou conversas, se preferirem, com este dois escritores de eleição, sugerimos que veja a emissão francesa de “Le Petit Journal”, disponível na net e de certeza irá adorar conhecer um pouco melhor Julia Kristeva e Philippe Sollers. Depois é partir para a leitura dos livros de um dos mais fascinantes casais do universo.

Rui Luís Lima

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Frank O’Hara – “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço” / "Lunch Poems"


Frank O'Hara 
"Vinte e Cinco Poemas à Hora de Almoço" 
Assírio e Alvim, Pag. 120 

Conheci a poesia de Frank O'Hara numa antologia organizada por Manuel de Seabra sobre os novos poetas americanos e a sua poesia. O livro editado pela "Futura" em 1973 ainda me acompanha nos dias de hoje, e o poema de Frank O’Hara intitulado "A Industria Cinematográfica em Crise", surgiu como se alguém me tivesse dado um soco no estômago, fiquei simplesmente sem respiração e nunca mais me esqueci dele e de todos os poetas americanos da sua geração e consequentemente da Literatura Beatnick. Em boa hora a editora Assírio e Alvim editou uma colectânea de Poemas de Frank O’Hara e de novo foi possível, de forma mais ampla, mergulhar na maravilhosa poesia deste autor que é urgente descobrir. 

Depois, ao saber como a vida está apenas presa por um ligeiro fio, fraco e frágil, decidi contemplar as ondas do mar com o meu olhar no silêncio dos dias e muitas vezes descobri marcas de pés na areia húmida da praia e inevitavelmente pensei que o Frank tinha estado nesse dia naquele lugar, esse lugar que ele pisou pela última vez e cuja beleza não o deixou ver a viatura que o iria levar do nosso convívio, mas os poetas – sejam aprendizes ou consagrados – nunca esquecerão este homem, cuja poesia nascia dos temas mais simples e das pessoas anónimas que com ele se cruzavam nas ruas de Nova Iorque, enquanto ele seguia para o seu local de trabalho no Moma. 

Nascia assim o seu convívio com a pintura e os seus artistas, Jasper Johns, De Konning, Rauchenberg, entre outros, já na poesia encontrou em Kenneth Koch e John Ashbery a amizade (ambos já publicados entre nós), mas nunca constituíram um grupo homogéneo como os Beat de S. Francisco, devido talvez à sua singularidade, embora todos eles fossem beber a poesia a Walt Whitman – o Pai de toda a Moderna Poesia Norte-Americana e também Mestre de Álvaro de Campos, recordam-se da sua “Saudação a Walt Whitman”? . 

O cinema, o teatro e a pintura acabaram também por surgir como matéria-prima para os seus poemas, assim como o jazz. Ler hoje Frank O'Hara é um daqueles prazeres que nos enche a alma de alegria, já que por vezes a vida insiste em nos oferecer a amargura e a tristeza. Beber a sua poesia através deste livro de poemas nas noites frias de Inverno, ou numa outra estação mais quente saborear a frescura das suas palavras, numa esplanada de uma praia no final do dia, revela-se na verdade um daqueles prazeres que nos enche a alma e nos leva a acreditar no universo poético deste magnifico livro de Frank O’Hara intitulado “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço” 

Rui Luís Lima

quarta-feira, 9 de maio de 2018

"John Carpenter: Memórias de um Homem Bem Visível"


"John Carpenter: Memórias de um Homem Bem Visível" 
Textos de: Luc Lagier, Jean-Baptiste Thoret, Kent Jones, Julien Husson, Dave Kehr, Railford Guins, Omayra Zaragoza Cruz, Luís Miguel Oliveira. 
Cinemateca Portuguesa, Pag. 253 

Quando passam seis anos sobre a estreia da película “O Hospício” / “The Ward” de John Carpenter, relembramos este genial cineasta a propósito da edição de um magnifico livro sobre ele e a sua obra intitulado “John Carpenter. Memórias de um Homem bem Visível”, um catálogo da Cinemateca Portuguesa organizado por Luís Miguel Oliveira, que também assina um dos textos que compõem o livro. 

A abrir temos logo uma longa entrevista com o realizador, levada a cabo por Luc Lagier e Jean-Baptiste Thoret, que nos oferecem uma viagem na primeira pessoa pela obra do Mestre do Terror/Suspense, recorde-se que a entrevista foi realizada aquando da estreia de “Escape From L.A.”, terminando com esta película uma espécie de Carpenter on Carpenter, em que ficamos a saber muito mais sobre o cineasta e a sua obra, incluindo a forma diferente como a crítica e o autor olham muitas vezes os filmes. 

O texto seguinte, da autoria do conhecido crítico Kent Jones da “Film Comment”, possivelmente o melhor texto do catálogo, coloca o dedo na ferida sobre os tempos em que vivemos, em que a ditadura da moda leva a crítica cinematográfica a esquecer-se dos verdadeiros autores e a fazer o elogio de obras menores, que se transformam rapidamente em sucesso, levando os seus responsáveis até a um falso Olimpo, onde mais tarde irão ser destronados por outros da mesma espécie, enquanto os “mavericks” do cinema permanecem bem escondidos e esquecidos do grande público. 

“John Carpenter e os Efeitos Especiais”, da autoria de Luc Legier, aborda a questão do visível na obra de Carpenter a partir desse momento charneira em que ele nos oferece “The Thing”, o “remake” de Hawks/Niby, onde os efeitos especiais tomam conta do filme, numa estratégia que se revelou um fracasso de bilheteira, mas que com a passagem do tempo foi conquistando cada vez mais adeptos, tornando-se num “cult-movie” e assistindo-se hoje em dia à sua revalorização.
Dave Kehr, em “Carpenter e Hawks”, oferece-nos um aliciante trabalho sobre a simbiose do universo de John Carpenter com o de Howard Hawks (o autor que John Carpenter mais admira), partindo para este jogo de referências através dos “duelos” de “Assalto à 13ª Esquadra” e “Rio Bravo”; o inevitável “remake” e original de “The Thing”, que tantos amargos de boca ofereceu ao cineasta, encerrando o confronto/referência com “John Carpenter’s Vampires” e “Hatari”. 

“Ghost of John”, da responsabilidade de Jean-Baptiste Thoret, é outro texto aliciante que se interroga sobre a conhecida teoria da política de autor no interior da obra de John Carpenter, tendo como referência essa obra para cinema intitulada “Fantasmas de Marte”, que deixou muitos em estado de choque aquando da estreia, pelas opções do cineasta, colando-se “a uma estética MTV” que o levaria a uma encruzilhada. 

Já Luís Miguel Oliveira, no seu texto “Por Onde Anda John Carpenter”, oferece-nos o seu olhar sobre os trabalhos realizados pelo cineasta para a televisão por cabo norte-americana: “John Carpenter’s Cigarette Burns” e “Pro-Life”, por sinal muito pouco vistos, interrogando-se também ele sobre o possível regresso do cineasta ao convívio do grande público e ao seio desse cinema de terror de que foi um dos maiores expoentes.
O volume oferece-nos ainda os textos “Da Frontalidade”, de Julien Husson, “A Repetição como Nostalgia Criativa nos Filmes de John Carpenter”, assinado por Raiford Guins e Omayra Zaragoza Cruz, terminando com “Os Prazeres Culpados de John Carpenter” da responsabilidade do próprio cineasta, que nos fala de alguns filmes que gosta de ver, pelo simples facto de serem tão maus que terminam muitas vezes por cativar as audiências pela sua temática "trash", reaccionária ou sem qualquer sopro de cinema. 

Os textos de John Carpenter são de um humor corrosivo, a que ninguém escapa: John Wayne e os seus Boinas Verdes a ganharem a guerra do Vietname, passando pelos filmes de Roger Corman, produzidos no espaço de uma semana, até chegar ao “Invasion USA” com os Estados Unidos a serem invadidos pelos russos, de que foi feito uma espécie de “remake” com o Chuck Norris no protagonista. 

A terminar deixamos aqui um excerto do que escreve o célebre crítico de cinema Kent Jones sobre a obra deste incontornável cineasta chamado John Carpenter «A América não tem assim tantos realizadores que lhe permitam dar-se ao luxo de pôr John Carpenter de lado. (…) Examinando a sua obra com atenção, percebe-se que tem uma das mais consistentes e coerentes obras do cinema moderno, no qual os triunfos – os dois sucessos dos primórdios, The Fog, Escape from New York, Prince of Darkness, They Live e In the Mouth of Madness – superam de longe os filmes menores ou problemáticos. Nunca fez nada que envergonhasse. Nunca fez um filme desonesto ou preguiçoso. 

(…) Diria que a marginalização de Carpenter se deve a algo mais triste e menos difícil de identificar, sobre o qual não tem controlo. Quer gostemos, quer não, regemo-nos por normas e paradigmas de realização, enquanto as mesmas mudam como placas tectónicas provocando-nos mudanças inconscientes em relação à forma de ver filmes, e à forma como vemos uns em relação a outro. E sem sabermos, muitos de nós fazemos algo que frequentemente censuramos noutras pessoas: cedências às modas. Não há dúvida de que as modas no cinema Americano mudaram a milhares de quilómetros de John Carpenter. Ele é um homem do analógico num mundo digital, que rege o próprio trabalho de acordo com critérios de valor a que já ninguém presta atenção.
Carpenter mantém-se totalmente sozinho, enquanto último realizador de género na América. (…) Outro solitário Americano, a sair de moda mas cuidadosamente guardando a sua integridade como um velho tesouro.» 

“John Carpenter: Memórias de um Homem bem Visível” editado pela Cinemateca Portuguesa, revela-se um excelente livro que nos convida a (re)descobrir a obra cinematográfica de um dos mais originais e brilhantes cineastas norte-americanos, cujo marca de Autor é bem patente nos seus filmes, que importa não deixar esquecer, na voragem deste século XXI, que insiste em perder a memória. 

Rui Luís Lima

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Jay McInerney – “As Mil Luzes de Nova Iorque” / "Bright Lights, Big City"

Jay McInerney 
"As Mil Luzes de Nova Iorque" 
Quetzal, Pag. 171 

Jay McInerney viveu um pouco como Jim Morrison, quando era pequeno, sempre de um lado para o outro, quase “coast to coast”, é simpático e o êxito não lhe subiu à cabeça revelando-se um pouco como um dos herdeiros da grande tradição literária norte-americana, ao mesmo tempo que a sombra desse génio chamado Francis Scott Fitzgerald paira sobre ele, basta recordar essa obra-prima que é “Brightness Falls”/”Quando o Brilho Cai”, retrato de uma geração, cuja capa da primeira edição portuguesa na Asa tem uma fotografia das célebres torres gémeas do World Trade Center, sendo o romance apenas um dos mais belos da literatura norte-americana de todos os tempos. 

Jay McInerney possui a tal “carteira” universitária e teve como professor esse génio da “short-story” chamada Raymond Carver (dele falaremos um dia destes) e se alguns se recordam de uma emissão do “Artes e Letras” (já lá vão uns anos largos), que foi dedicada precisamente a Raymond Carver, lembram-se certamente da forma comovida como Jay McInerney falou dele e da sua obra ao lado de Tess Galagher, a esposa do escritor. 

Seria através das “short-stories” publicadas na “New Yorker” e na “Esquire” que muitos fixaram o nome do então jovem e desconhecido Jay McInerney, mas a sua magia literária irá ser dada a conhecer ao mundo com a publicação de “As Mil Luzes de Nova Iorque” / “Bright Lights, Big City”, uma novela acerca da “Big Apple” e da sua “fauna” escrita em apenas seis semanas, que tem a a abrir uma citação de “Fiesta” de Ernest Hemingway: 

- Como é que foste à falência? – perguntou Bill. 
- De duas maneiras – respondeu Mike. – Gradualmente e, depois, de repente. 

De imediato Jay McInerney foi apontado, e bem, como um dos “wonder-boys” da nova literatura norte-americana e, como não podia deixar de ser, Hollywood comprou os direitos do livro e o filme nasceu realizado por James Bridges e com o Michael J. Fox no protagonista, como muitos devem estar recordados: era o mundo da moda e não só, com o célebre Studio 54 a fervilhar de sangue, suor e lágrimas. E nunca será demais referir que foi o próprio Jay McInerney que assinou o argumento da película, algo bastante raro no sistema dos Estúdios, e que se revelou excelente, porque o escritor nos ofereceu o melhor da sua escrita, como argumentista. 

“Ela dá um passo em frente e beija-te. Devolves-lhe o beijo prolongando-o. O tempo passa. Sentes-te excitado. Pensas em dizer-lhe para ir ao teu apartamento, depois achas melhor não. A renúncia é, por vezes, mais doce que a realização.” 
- Jay McInerney - "As Mil Luzes de Nova Iorque" 

Seguiram-se “A História da Minha Vida” / “Story of my life”, ainda um pouco a mesma temática (novela), ao mesmo tempo que as suas “short-stories” viam as suas arestas a serem limadas e aperfeiçoadas até à exaustão, sendo publicadas em diversas revistas. 

Quando “Brightness Falls” / “Quando o Brilho Cai” saiu, todos se renderam à sua genialidade e aqui ele, de uma forma inteligente, saiu da grande metrópole e procurou territórios mais propícios para a sua escrita nascendo “Modelos” / “Model Behavior”, uma novela fabulosa acerca do mundo da moda, depois regressou às colectâneas de contos e não resistiu a ir buscar as personagens de “Quando o Brilho Cai” para uma das histórias e a elas irá regressar novamente muitos anos depois. 

E quando todos nos interrogávamos qual seria o caminho a seguir por Jay McInerney, a novela ou o conto, surge um belíssimo romance com os blues e a amizade como pano de fundo, estamos a falar de “O Último dos Savage” / “The Last of the Savages”. A obra tem uma força visual e musical de tal ordem que por vezes o leitor se sente a navegar no Mississipi profundo, em busca da célebre encruzilhada do diabo, que “Walter Hill” nos ofereceu no seu magnifico movie “A Encruzilhada” / “Crossroads”, em que o território dos blues era surpreendentemente invadido por um duelo de dois guitarristas, um com o seu hard-rock e o outro a recriar Bach, como se o compositor fosse um daqueles mestres do blues e como não podia deixar de ser o autor deste duelo só poderia ser o genial Ry Cooder. 

A obra literária de Jay McInerney é uma das mais fascinantes da Literatura Contemporânea norte-americana e recomendamos vivamente a sua descoberta. 

Rui Luís Lima